Sexta-feira, 20 de Maio de 2005

...

<os amigos merdosos
(ou os amigos shity shity bang bang)

E quando os nossos filhos escolhem melhores amigos que não prestam, hein? O que fazer? Big, big fucking problem, é o que vos digo (além de poder dar direito a trauma com direito a divã).
No ano passado, quando o maior amigodo meu filho do meio fez oito anos, deu uma festa num recinto perto do colégio e convidou vinte colegas de turma. Nove ficaram de fora, e um deles foi o meu filho.
No fim das aulas, a professora (um modelo de sensibilidade e tacto) ordenou que os meninos que iam à festa de perfilassem à direita e os que não iam, à esquerda. O meu filho seguiu obedientemente para a esquerda, juntamente com os restantes não-convidados, enquanto os outros lá saiam mais cedo, com direito a balões, insufláveis, salgadinhos, batatas fritas e pinturas na cara por uma tarde.
Eu soube-o porque, em amena cavaqueira com uma mãe em frente a uma bica no café da esquina, ela me falou na festa onde ambos os nossos filhos estariam naquele momento. Qual festa?Disse-mo, enquanto se me contraía o coração como se o king kong mo apertasse e o exibisse em triunfo no topo do empire state building. Mas o Diogo não foi convidado, eu vou buscá-lo agora... (e a outra boquiaberta, incrédula).
Pago a bica, saio a correr, mando chamá-lo e olho-o ansiosa, auscultando-lhe o semblante. Ele brinda-me com o sorriso de sempre. Tudo bem? Tudo, mãe. Espero, embora saiba que nada me diz nem dirá(ou não conheça eu o silêncio de fundo deste meu filho). Às tantas não aguento, ai merdinha que explodo já aqui!e pergunto-lhe da festa. Explica-me com naturalidade que não, não foi convidado, mas não se importa, continua a ser amigo do amigo. Remeto-me a um silêncio culpado. Nos dias seguintes, fala dele como sempre: o dilecto e predilecto, o mais atrevido, o que o faz rir, o companheiro das partidas.
E eu a pensar, deixo estar ou não deixo, digo-lhe que o amigo não o merece e que quem é nosso amigo não faz o que ele fez, magoo-o e obrigo-o a crescer um bocadinho, aqui e jáou deixo andar? Os dias passam e eu acabo por lhe perguntar (a consciência na retranca) se alguma vez perguntou ao amigo a razão do não convite. Responde-me que por acaso até sime que o amigo não o convidara porque, no ano anterior, ele fora aos anos dele e não lhe levara prenda. Não lhe levara prenda. Não...lhe...le...va...ra...pren...da.
Stop.Pause.Rewind.
O amigo.
Eu e o pai (entre nós) chamamos-lhe o Godzilla - miúdo mal-criado, rude, grosseiro e conflituoso - o típico bully. De todas as vezes que deparei com ele no seu ambiente natural(o recreio), a criatura entretinha-se a arrear num dos colegas (daí o nome de baptismo). Compreende-se assim que, sendo o mais temido, seja também o mais seguido pelos outros e que tal se possa confundir com popularidade.
Aquilo é um mix de genes e educação, e basta atentar na mãezinha para toparmos o filme todo: uma quarentona nova-rica que até os pelos púbicos deve oxigenar, com dedinhos suínos forrados a cachuchos e semblante forrado a excesso de base e antipatia. Tão certo como eu estar aqui a escrever, deve ter sido ela quem aconselhou o filho a descartar o meu (e os outros oito desgraçados) da gala do princípe, depois de feitas as devidas contas de cabeça.
E então, que fazer? Explicar-lhe que quem condiciona uma amizade à entrega de uma prenda não vale uma carta de pokémon rasgada? Que a godzilla-mãe é má e que o filho não é melhor? Suspeito que de nada lhe serviria a verdade e que ele continuaria a dizer que não se importa, que gosta do amigo à mesma e que ele agora está melhor e já não bate tanto nos outros e que jurou que para o ano o convidaria... Dou por encerrado o assunto, receando que a emenda se revele bem pior do que a merda do soneto.
Agora tenho um big, big problem: aproximam-se os anos do meu filho. Da lista provisória, que é ao gosto do freguês (convidas quem quiseres, professoras, contínuos, senhoras do cacifo e da cafetaria...), constam todos menos o Godzilla. Então e o teu amigo? Ora mãe, não o pus na lista porque sei que não queres que ele venha (não: dá-me uma facada, vá! é que mais vale apunhalares-me jáaqui, qualquer coisa deve custar menos do que isto, foda-se, que puta de mãe eu sou...).
Com um anzol retorcido, repesco a minha voz do fundo do estômago, mas eu nunca disse que não o podias convidar. Não gosto muito dele depois do que aconteceu, é verdade, porque a amizade não se mede pelos presentes que damos uns aos outros, mas se tu achas que é de facto o teu melhor amigo, então ele deve vir à tua festa. Quando fazemos anos, devemos ter connosco as pessoas de quem mais gostamos. Uma expressão de alívio ilumina-lhe as bochechas, inchadas pelo sorriso, está bem, mãe, então quero.
Mais um stop.
Outro pause.
E novo rewind.
O motherfucker do presente.
Os meus três filhos, por junto, vão as dezenas de festas de aniversário ao longo de um ano lectivo. Até o de cinco anos tem uma vida social melhor e mais intensa do que a minha (bem, até uma carmelita descalça tem mais vida social do que eu, não será por aí que... adiante).
Ora, tendo-lhes cabido em sorte uma mãe que é a cabra mais distraída ao cimo da terra, uma duh!que conta com eles para a lembrarem do dia e hora do dentista, do pagamento das mensalidades, dos anos das vacinas, dos dias de passeio, das datas das inscrições e das gotas de fluór, é possível que, entre ir buscar aqui e levar ali, natações, futebóis, ballets e o caralhinho que ma foda, me tenha esquecido da merda do presente para a centésima nonagésima festinha em horário pós-laboral. O mais provável é que não tido tempo, sequer, para o comprar. Agora, de uma coisa sei: chegada a uma festa de aniversário de mãos a abanar, ter-me-ei desculpado à exaustão pela falta do estuporado do baybladeou o camandro, e sorrido muito, muito (que sou asneirenta, mas não mal-educada).
Anyway, a vaca oxigenada terá levado a questão a peito e eu imagino o que é que os outros oito tristes que ficaram de fora terão falhado nas festas anteriores. Várias hipóteses se perfilam: terem acertado a tabuada toda do dois, enquanto o godzillazinho metia água; terem bebido uns desmesurados três (três! Olhó gasto!) copos de sumo num qualquer aniversário anterior, terem oferecido um boneco da loja dos trezentos (com o preço colado a dizer 1,99 euros) ou não terem cantado o parabéns a você com suficiente convicção. Por exemplo.
Conclusão.
Daqui a umas semanas vou ter a viúva porcina em minha casa, mais a sua diabólica descendência. A sequela da Semente do Diabo, em directo e ao vivo do quintal aqui da vossa amiga. O melhor écomeçar já a treinar o esgar-pseudo-sorriso de anfitriã com que os receberei, aos dois, no meu humilde lar e aviar uns comprimiditos para os nervos, que com o jeito que eu tenho para fingir sentimentos, a mulher ainda sai de lácom uma garrafa de champommy pelos cornos abaixo, uma velinha em cada tímpano e um croquete miniatura em cada narina.
Ai. Ai que eu.
publicado por Vieira do Mar às 03:15
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1 comentário:
De Rachel a 14 de Novembro de 2008 às 00:44
Pois, ainda não me fui embora daqui...

E este post, nem de propósito...

Há algo, no meu humilde blog (que não é baby, é um mix...) que em termos de escrita em absolutamente nada é semelhante a esta pérola literária, mas é muito aproximado na matéria conteúdo.

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Sofia Vieira

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