Domingo, 22 de Maio de 2005

...

Ser mãe é

CONHECER de cor as farmácias de serviço, hoje é a Macedo, ali prós lados de Benfica,
IMPINGIR molhos de fotos às visitas, vejam como ele aqui está tão querido, mesmo sabendo que, a elas, não lhes está nada a apetecer (e eu, nas tintas),
TER a absoluta certeza de que o espasmo involuntário que o fez revirar os cantos da boca para cima quando ainda não tinha um mês, era um sorriso só para mim, a mostrar que me adora,
INVEJAR em silêncio a liberdade das amigas que não têm filhos e querer voltar a ser como elas, mas sentir um assomo de regozijo quando elas mo invejam, porque, afinal, ele é lindo, e nunca houve nenhum bebécomo ele,
RECONHECER o seu choro, como uma sirene no coração, por entre os berros de mais dez recém-nascidos, quando ainda mal fomos apresentados,
CONSTATAR que a porcaria daquele café - que não posso ir tomar depois de jantar - era a coisa que mais me apetecia na vida,
ACHAR que ninguém sabe pegar nele ao colo e que as probabilidade de o deixarem cair são de 20 em 20, cuidado, olha a cabecinha, agarra-lhe bem o pescocinho, não lhe esborraches a mãozinha,
TER um álbum, actualizado dia a dia, para o primeiro filho, mês a mês, para o segundo, e não ter álbum nenhum para o terceiro, que vive de imagens emprestadas, sobras de paciência e mimo desmedido, ó mãe, posso, posso, posso? podes, podes, PODES!
SUBSTITUIR o jornal diário e contos de Nabokov pelos ensinamentos do Dr. Brazelton, capítulo XI, a retenção das feses,
ACHAR a estética da cadeirinha de passeio, gostas mais das borboletas verdes ou azuis, muito mais importante que a estética de Hegel,
ESQUECER que, num cinema perto de nós, também se exibem filmes sem animais que falam;
SER rodeada por um gang armado, às duas da manhã, à porta da loja da BP, e entrar mesmo assim, porque já não há leite em casa,
CHORAR baba e ranho ao ler uma porcaria de um papel que diz O Diogo Já Sabe Ler ou A Direcção Certifica Que A Beatriz Concluiu O 1º Ciclo Do Ensino Básico Com Distinção,
FAZER amizade com uma cigana, às três da manhã, nas urgências de pediatria, e ficar a saber que as ranhocas do Fábio Maurício também estão verdes,
OUVIR o seu primeiro gpatrnmnqprrr e jurar a pés juntos que o que ele disse foi MAMÃ,
IR jantar fora e ter o telemóvel na mesa, ao lado do garfo, com um toque da Romana e o volume no máximo, não vá acontecer alguma coisa, naquela meia hora que demoramos a deglutir uma refeição completa ,
SORRIR para as outras mães na rua e elas sorrirem de volta, como troca o santo e senha de uma irmandade secreta,
ACORDAR em sobressalto com o miúdo da vizinha a chorar, quatro andares abaixo, a pensar que é o nosso,
os pesadelos, DEIXAREM de ser o eu cair e nunca mais chegar ao fundo, para passarem a ser o ele a cair e eu a não o conseguir apanhar,
GOSTAR ainda mais do meu amor, porque, além de meu amor ele é, também, o pai dos meus filhos,
DESESPERAR, quando ele nos pergunta coisas como onde acaba o universo?, porque é que a gente não vê no escuro? e porque é que não caímos quando a terra dá a volta?, e o número "dez", é muito ou pouco?,
ACHAR que o homem mais sexy do mundo não é, nem o Brad Pitt, mas sim o vizinho do lado, aquele que leva a filha bebé ao colo e lhe diz coisas como quem éa lindinha do papá, quem é, cucuuu, titi, dádá, e nós, eh pá, ele é tão amoroso com a miúda, caraças, que querido, que tesão!,
ENRIQUECER o léxico com palavras novas, que nem por isso representam realidades especialmente agradáveis, como bolsar, mecónio, mamilo gretado, mama encaroçada, convulsões e hérnia umbilical,
CONSTATAR que os seus cabelos, pele e olhos muito escuros, até têm algumas parecenças com as minhas sardas, cabelos louros e cor desmaiada, é a sobrancelha, estão a ver, sai a mim, vai buscá-la ao avô materno, já é coisa de família, e a ponta do dedo mindinho também é parecida com a minha,
TER vontade de chorar quando ele tropeça na festa da ginástica, e de saltar para o meio do palco, abraçá-lo e resgatá-lo para longe das vacas das professoras, que hão de ter sido as culpadas, dê lápor onde der;
FAZER tudo para o empandeirar por uma horas e, uma vez deitada na banheira cheia de espuma, odiar o ricochete do silêncio nos quatros cantos da casa,
IR para longe, mas nunca mais ir completamente, e passar a ficar um bocadinho para trás, presa pelo coração. Para sempre.
publicado por Vieira do Mar às 03:31
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1 comentário:
De MH a 28 de Julho de 2006 às 16:48
Que bem que me soube reler estes textos! E aquele do percentil, de que mês é? Beijinhos

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vieiradomar@sapo.pt
Sofia Vieira

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