Terça-feira, 30 de Agosto de 2005

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Klube infantil

E lá estava eu, à porta de uma coisa chamada Klube, em Vilamoura, sujeita ao escrutíniopouco amistoso de um porteiro bronco, como uma perigosa ré armada em boazinha para sacar a precária, e a conseguir entrar graças ao assomo de magnanimidade da criatura, obviamente situada na base da cadeia alimentar.
Era a retumbante noite rastafari - mas na variante "noite dos bisnetos do Bob Marley ", pois que, até onde a minha vista de cota alcançava, aquilo era só crianças entre os catorze e os dezoito anos.
Com um gin tónico aguado no bucho, a sentir-me uma autêntica penetra e em risco sério de tédio mortal, dediquei-me ao estudo do comportamento social e da linguagem corporal dos muito jovensde hoje em dia. Concluí uma coisa: que eles não se sabem divertir (aqueles, pelo menos, não sabiam). Não sei se é do medo da Sida, se da erosão da heterossexualidade como comportamento dominante, se da ditadura do politicamente correcto, mas já não se engata como antigamente - o que não deixa de ser estranho atendendo a que, tanto elas como eles, são muito mais giros do que nós éramos (mais altos, mais magros, com menos acne e, decididamente, mais bem vestidos).
Verdade se diga que, em contraste com a beleza saudável e ginasticada que quase todos exibem, nota-se-lhes uma falta de vivacidade e de sensualidade que até assusta. Ele é rapazitos aos molhinhos de três e quatro, de ar mole e envergonhado, copo na mão, sem se darem ao trabalho de olhar com atenção as miúdas à sua volta e muito menos de, por exemplo, discutirem entre si a cubicagem das maminhas e dos rabos (o que não me parece nada normal); e ele é elas noutros molhinhos, diferentes e isolados, concentradas no reggae debitado por um trio que mais parecia de arrumadores subnutridos, a chuparem coca-cola e ignorando-os olimpicamente enquanto discutem o último colar comprado na feira. Estranho. Ah! E quase ninguém dança, vê-se que têm vergonha.Em resumo, falta galanço a esta miudagem, falta galanço, medem-se pouco, muito pouco e eu não entendo onde se esconde tanta hormona que, supostamente, deveria andar por ali aos pulos que nem pulgas em pelo de cão de água.
Então lembro-me de que tenho uma filha a caminho dos treze, e, subitamente, a aparente falta de líbido desta nova geração já não me parece assim tão má, que deus a mantenha e guarde, a estes santinhos.
Cerca da duas da manhã chega nova revoada de infantes, até parece que tocou para o recreio, e eu a rir desbragadamente com aquilo tudo, a ser observada e dissecada pelas miúdas à minha volta, como uma alien caída em Roswell.
Às tantas, a música muda para r&b, o meu marido agarra-me pela cintura e começamos a dançar a par. Bom. Sabem aquela cena do Madagáscar em que os animais são apanhados pela polícia na Central Station? Pois. Pouco faltou para que ligassem holofotes a apontar para nós, as sirenes começassem a tocar, os seguranças e o corpo de intervenção da PSP acorressem ao local, e se formasse um círculo de miúdos aterrorizados à nossa volta, de dedos apontados para as nossas pessoas aos gritos de ESTÃO AQUI! PAIS! PAIS! PAIS!
Felizmente, conseguimos fugir sem ser apanhados e fomos ao pão quente. Ufa. Quem disse que a generation gap não é uma coisa boa e desejável? Tá bem tá.
publicado por Vieira do Mar às 03:27
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Sofia Vieira

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