Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

...

os desgraçados das quatro da manhã


Pronto, agora é que é: passei a engrossar as fileiras dos desgraçados que, encolhidos nos assentos do carro e a fungarem de sono, aguardam a saída das discotecas dos filhos adolescentes que não têm idade para ter carta nem maturidade suficiente para irem com os amigos para casa. Sou, portanto, mais uma daquelas pobres coitadas que têm inteligência para perceberem que é melhor dar-lhes alguma liberdade que nenhuma (para que não lhes aconteça o que acontecia às meninas de antigamente quando se livravam das freiras), mas não a inteligência suficiente para conseguirem delegar nos outros o transporte da criança, o que tem como consequência nunca acalmar o pito antes das quatro, cinco da manhã. E esta pouca inteligência que me sobra é tão, mas tão, limitada, que nem confio nas mães das amigas da miúda para a trazerem - algumas bem mais idóneas que eu - e, muito menos, nos pais, nos avós, nos tios ou nos táxis. Feita parva, acho que tenho que ser EU a estar lá às quatro da manhã, a cheirar-lhe o bafo. Basicamente, uma totó meio grogue, a tentar perceber se a roupa está toda no lugar, se a voz não lhe cambaleia, se está bem-disposta e se correu tudo bem. O que é um exercício um bocado espúrio (se cheirar a álcool ou a tabaco, faço o quê, hã? um drama?). Bom, mas isto para vos dizer que somos um grupinho digno de pena, acreditem. Para ali estamos, alguns de nós de gabardina sobre o pijama, à espera da saída das crias, quase sempre umas ingratas de má-cara porque queriam ter ficado mais uma hora porque “agora é que aquilo estava bom”. Os bocejos gigantescos, o ar desinfeliz e os quatro piscas ligados, são o santo e senha dos pais das três da manhã. Ou dos das quatro da manhã (por enquanto, pertenço à primeira leva, a dos que têm filhos entre os 13 e os 15). A hora combinada para a recolha - 3 da manhã - é tramada, porque não é carne nem é peixe e requer preparação prévia. É que não sei se estão a ver: sexta-feira, podre de cansaço, fui jantar fora e tal mas agora estou mortinha por aterrar no sofá ou no colchão. Mas não, não posso. Quando olho para o relógio já é meia-noite, daqui a duas horas tenho de estar a pé: se ponho o despertador não acordo. O terror de as crias poderem ficar na rua entregues a elas próprias e sujeitas aos selvagens da nite, leva-me a espetar palitos nos olhos e a submeter-me, nas duas horas seguintes, a uma espécie de tortura chinesa: a do ping ping infernal dos minutos. Lá para as duas, não aguento e cabeceio; até costumo sonhar um bocadinho, com pastagens verdes e bois e assim, até o despertador do telemóvel me fazer saltar o coração na boca, dando-me vontade de vomitar. Podem crer que, no momento em que me faço à estrada, estou mais bêbada do que um presidente russo; se a polícia me mandar parar, tenho a certeza que acuso qualquer coisa. Mau, muito mau. Só tenho uma coisa a dizer, sinceramente: obrigada, pai.

publicado por Vieira do Mar às 17:19
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24 comentários:
De maedoskiduxos a 24 de Janeiro de 2008 às 11:08
Não quero nem pensar quando chegar a minha vez...
De Grilinha a 6 de Fevereiro de 2008 às 17:28
Já passei por esta fase e muitas noites adormeci dentro do carro á porta da discoteca.
Como a diferença entre eles é de apenas ano e meio, consegui juntar ela e ele na mesma discoteca e com amigos comuns da escola.
O tempo foi passando e eles crescendo mas a preocupação é a mesma.
Ela já saiu de casa e ele ainda cá mora pelo que quando sai á noite estou sempre com o ouvido na porta para o sentir chegar e poder descansar.
Não me arrependo das noites mal dormidas por ter que os ir buscar ás festas e discotecas.
Não é que não confiasse nas outras mães, tias ou avós mas porque tinha que os ver sair no calor do ambiente festivo (como te compreendo).
Parabéns por seres uma Mãe atenta.
De Micas a 22 de Fevereiro de 2008 às 00:28
cara vieira/sofia
apenas para dizer que tenho um filho com 13 anos e não me passa pela cabeça ir buscá-lo a discoteca nenhuma. ir ao cinema é no final dos periodos e fica por aí a frescura. ;-)
qdo ele tinha 11 anos teve um grupo de amigos da escola q começaram a querer dar festas à noite. primeiro eram uns anos, depois era o fim da aulas, depois já era o jantar ali mesmo ao atrevessar da rua... quando dei por mim já não era por coisa nenhuma e preparava-se para achar normal sairem todas as sextas feiras à noite. o problema foi resolvido rapidamente com um rotundo "não". mas o pior mesmo foi explicar às mães que me telefonavam para combinar as boleias que eu não achava normal uma criança de 11 anos ir sair todas as sextas feiras à noite com os amigos...
agora, quase dois anos e cerca de 30 cms depois aguardo nervosamente nova investida sobre po tema das saídas.
quanto ao blog... moribundo? pelos céus, não! o blog está óptimo!
e tão dificil encontrar um blog assim!...
De Anita a 21 de Janeiro de 2009 às 11:30
Olá! tenho 25 anos e moro nos arredores de Lisboa, como eu costumo dizer, "nos montes". Ou seja, longe de tudo o que é rede de transportes e até ter 18 anos, carro e carta sempre tive uma mãe (ou um pai) que me ia esperar à porta da discoteca. Preferia sempre a mãe, claro! Porque com ela podia sempre partilhar como tinha sido a noite:) Também nunca deixou que ninguém fosse buscar a filhota por ela e vir com pessoas mais velhas que tivessem carro nem pensar. Por isso, altas horas da madrugada lá estava ela, carregada de sono de casaco por cima do pijama à minha espera.
Por isso, aqui fica o meu apoio a todas as mães que perdem horas de sono para esperarem pelos filhos à porta da discoteca! Vocês são lindas! :)

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Sofia Vieira

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