Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005

...

Um filho doente

Como me apetecesse dizer mal, cortar na casaca, ser um bocadinho puta, enfim, telefonei a uma amiga. A custo, pediu-me que a desculpasse mas não poderia brincar comigo, pois tinha o filho pequeno bastante doente. Tipo castor hiperactivo, o arrependimento roeu-me os fígados e com eles construiu rapidamente uma represa. Quão estranho lhe deve ter parecido o meu palavreado solto!, assim como quem vê um estendal de roupa ao longe e ao vento, sem forma nem nexo... 
Porque, quando nos adoece um filho, suspende-se-nos a rotação do sol e da terra e tudo pára, como a bobina de um filme que se parte, a frame imobilizada no ecrã , com o galãparado, a caminho dos lábios para sempre entreabertos da sua amada.
No fundo, no fundo, sabemos que, láfora, as pessoas continuam a ir para os empregos, picam o ponto, discutem política nos cafés e pedem o prato do dia, mas são rituais que nos surgem distantes, improváveis, quase absurdos. O que resta da nossa existência, para além do filho-que-está-doente-e-tem-que-ficar-bom, passa a ser gerido em piloto automático, porque nós, na verdade, não estamos lá, abandonámos temporariamente o cockpit das coisas banais.
E os outros, quantas vezes sem perceberem que o ser humano que têm à frente não é mais do que um clone nosso, um fantoche que se faz passar por nós e que manda bitaites em reuniões importantes, confere o troco na caixa do supermercado e diz boa noite aos vizinhos, no elevador.
O medo que nos toma de assalto o estômago minimiza tudo o resto, desde dívidas por pagar a ofensas por vingar. Trepa-nos em espiral, como alguém que sobe a correr as escadas de um farol, e empurra-nos para cenários de horror terminal, confabulados a partir de uma constipação de merda.
A um filho doente, seguimo-lhe religiosamente as funções vitais: se não come, perdemos o apetite; se não dorme, forçamo-nos à vigília; se não lhe apetece brincar, não nos apetece ouvir música, ver um filme, fazer amor. Se nos desvia o olhar mortiço da história que à noite lhe lemos, nós, nem nos atrevemos a olhar para os títulos do jornal do dia.
Sacerdotisas dotadas, adivinhamos nas entranhas da fisionomia dele os mais pequenos sinais de recobro ou do contrário, e sabemos ser o silêncio o pior desses sinais. É então que queremos tanto!, voltar a estar fartos do barulho do rodado do triciclo no soalho, das birras ao fim da tarde e da avalanche de perguntas irrespondíveis, que nos abalançamos a qualquer coisa que rompa a insuportável quietude do nosso filho doente. 
E o tempo lá fora, suspenso, o relógio da nossa vida parado, àespera de corda. Na imensa e feliz maioria das vezes, tudo acaba sem deixar outras mossas que não as que se vão sobrepondo, em camadas de mil-folhas, no nosso arrítmico coração de pais e mães.
Mas só ao primeiro sinal de melhoras irreversíveis os vários lados da nossa vida desconchavada começam de novo a encaixar-se. É apenas então que, quais houdinis aliviados, nos libertamos das correntes que nos puxavam para o fundo e vimos à tona, expirando longamente as angústias monoxido-carbónicas-acumuladas. E a terra recomeça, lentamente, a girar.
publicado por Vieira do Mar às 03:18
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Domingo, 9 de Outubro de 2005

a precoce consciência das limitações

Miúdo de 9 anos amigo do meu filho: o Diogo gosta da Mariana R.!

Diogo: e tu gostas da Marta L.!

Eu: Ah sim? E é gira, a Marta L.?

Miúdo de 9 anos amigo do meu filho: É muita gira.

Diogo: Nem por isso. Por acaso, não é assim muuuuuita gira...

Eu: Ai não? Então em que é que ficamos: é ou não é gira?

Miúdo de 9 anos amigo do meu filho: Bem... é... mais ou menos. Giras, giras, são as de 18 anos, mas com essas não tenho hipóteses.
publicado por Vieira do Mar às 02:51
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Sofia Vieira

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