Sábado, 3 de Dezembro de 2005

a árvore de natal

Isto das decorações de Natal como forma de celebração do espírito da Família, there´s a season to be jolly, lalalalalalalala..., tem que se lhe diga.
Começa tudo imbuído daquele espírito maravilhoso de sermos uma comunidadezinha fortificada pelo amor, pela alegria e por outras utopias que tais, e toca de enviar o entusiasmo inicial à garagem e mandá-lo trazer os pacotes todos para cima. A princípio, a malta ajuda e participa: pega daqui, escorrega dali, empurra dacolá, até ao elevador e, se preciso for, até ao infinito e mais além. Ao entrarmos em casa, já os bofes estão assim um bocadinho como que mais para fora do que para dentro, que a árvore é artificial e pesada, os enfeites são muitos, os anjinhos são de gesso, as bolas, de vidro, e os pais natal, de madeira.

Colo a cuspo as vontades, que começam a dispersar-se à primeira imagem dos morangos: vá lá, meninos, bora aí fazer isto, o que ajudar mais põe a estrela lá no cimo (estranhamente, esgatanham-se, por este privilégio final) e lá consigo arrastá-los para a montagem da coisa propriamente dita.

Ora bem, abrir as ramagens de uma árvore de natal de metro e setenta com a consistência de um abeto adulto dos apeninos, é tarefa, no mínimo, chata como a potassa: raminho a raminho, abre e puxa, abre e puxa, até ficar tudo redondinho e com o formato devido, que é parecer o mais natural possível. Por esta altura, quase sempre valores mais altos se levantam, normalmente, uns providenciais trabalhos de casa que haviam ficado esquecidos na bruma dos tempos. E lá me desaparecem eles para os respectivos quartos, fingindo semblante responsável. Quando acham que aqui a moira já abriu e puxou todos os fucking raminhos da puta da arvorezinha, aparecem alegremente na sala, de volta ao convívio natalício-familiar.

Então e agora, mãe? Agora é pôr as luzes, mas primeiro temos de as desenrolar.
E lá está: desenrolar as luzes (mal enroladas e à pressa no fim do Natal anterior) é uma graaaande maçada. As lâmpadas prendem-se umas nas outras, metade estão partidas e eu nunca me lembro de as ligar antes de as envolver na árvore; depois, quando constato que estão fundidas, tenho que as desenrolar, enquanto a minha língua desenrola em murmúrio (era bom, era) meia dúzia de asneiras, pouco condizentes com a quadra e com o momento, que se quer de alegria e paz.

Ultrapassado o pseudo-drama da iluminação, chega a altura dos enfeites. Aberta a caixinha das surpresas, três narizes mais ou menos curiosos (mais menos, do que mais, que o Zé Milho está a dar uma aula de hip hop), e começa finalmente a decoração a quatro.

Estranhamente, com tanta bola, estrela, anjinho e guirlanda, de todas as cores, tamanhos e feitios, cada um deles só quer o que os outros têm, dando-se então início à sinfonia do eu vi primeiro e dá cá isso, meu ganda troll. Os primeiros cinco minutos, são passados a disputar o direito à posse de uma bola encarnada (sendo que existem mais dez iguais); os outros cinco, o direito a uma estrela dourada (de que há mais seis) e por aí fora, até ao desmoronar completo da fraternidade natalícia e da minha paciência - que é o momento em que se escolhe qual deles porá a estrela branca (esta sim: única) no topo da árvore.

Por esta altura, já as minhas adoráveis crianças esgotaram o léxico de injúrias e ameaças aprendido no recreio da escola, acrescentaram mais umas de sua própria lavra, ensaiaram alguns tabefes e beliscões uns nos outros, e eu já os expulsei dali para fora. Com indisfarçável alívio, acabo por compor os finalmentes em agradável solidão.
Chamo-os, então (não tenho safa possível) para o momento da estrela branca: o vencedor é tirado à sorte, os outros dois, perdedores, fazem juras de ressentimento eterno e congeminam a aplicação de um ou dois cascudos no fanfarrão, na ausência dos adultos.

Nos dias seguintes, perguntados que são sobre a árvore de natal, prevalece unanimemente a versão oficial: foram eles que alancaram com a dita escada acima, foram eles que a montaram e eles que a enfeitaram. O pai, esse traidor, corrobora. Eu, basicamente, ter-me-ei limitado a supervisionar a operação. Ou nem isso: se formos a ver bem, nem lá estive. E eu não os desminto.


Todos os anos, por esta altura, a sensação de ser uma ganda-mega-major-mãe-totó-comida-por-todos-os-lados-menos-pelo-lado-que-liga-ao-continente, agrava-se.
publicado por Vieira do Mar às 02:59
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Sofia Vieira

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