Sábado, 10 de Setembro de 2005

...

alguém que me os leve

Faço-me à praia, na urgência de esfoliar esta invernia que se me mantém colada à pele. Assim que a vislumbro ao longe inspiro fundo, para que o cheiro a iodo e algas me atinja o córtex, mas é então que me lembro de que estou no Algarve, suave Algarve, e não nas praias do Oeste que me correm nas veias, essas línguas de areia grossa (batidas por um mar intratável, amante de mau feitio), propriedade dos pulgões e das gaivotas, com escritura assinada no tempo dos dinossauros.
Célebres celebridades que ninguém celebra cruzam-se comigo ao longo do enorme passadiço em madeira que rasga a reserva natural, a caminho da barraca de praia mais in de Portugal, dispostas a pagarem cem euros por um robalo que o espertalhão do dono finge ter pescado com as próprias mãos.
Por entre os toplesses das estrangeiras e as guedelhas dos betos, miúdas de cor guardam crianças brancas, de seis meses, um, dois, cinco anos. Envergam batas de riscas abotoadas até ao pescoço, que asseguram aos outros que elas não estão ali para se divertirem e que não se atreverão a roubar um raiozinho, sequer, de sol.
Contemplo aquele quadro e algo lhe falta, como um fresco de Boticelli despojado de mulheres ruivas ou um óleo de Rubens sem matronas opulentas. Subitamente, como uma brisa fria que passasse, faz-se-me luz: falta ali humanidade, calor, bem-querença; não há tocar, nem acarinhar, nem afagar, apenas uma mão-trela que agarra as crianças e as impede de se afogarem, de engolirem areia ou de se queimarem com o sol.
Por sobre as pequenas cabeças louras que têm à sua guarda, as miúdas negras olham com apatia o cargueiro que passa ao longe, na linha do horizonte, como se este fosse atracar na praia e entregar-lhes em mão uma vida nova, trazida em contentor selado. Sonham com coisas, parece-me: um encontro prometido, talvez, uns ténis que viram numa montra; as crianças louras, essas, aceitam com indiferença, a indiferença de quem lhes dá a mão e, num sábado à tarde, momento do suposto reencontro dos afectos em família, brincam sozinhas, guardando as palavras e os olhares para si próprios.
E eu, que nunca fui mãe-perfeita, nem mãe-paciência, nem mãe-só-mãe;que tantas vezes, confesso, tantas vezes!, me disse que gostava de ter uma daquelas só para mim, sópara eles, são tão meigas com as crianças e tão pacientes, as pretas, as mãe-pretas;
eu, que gostava de voltar a pular numa discoteca, de poder gritar quando faço amor, de voltar a beber atécair e de ir a correr e, depois, mergulhar onda dentro sem cuidar de quem me seguisse, e de ficar a boiar e ser arrastada pela corrente como uma alforreca morta, e de poder adormecer na toalha molhada, uma bochecha com as marcas do turco e a outra escaldada pelo sol, e de não estar sempre vigilante, põe o chapéu, olha a onda, anda cá, não me atires areia, ai! alguém que mos leve;
eu,
ali, naquela praia, sinto que nos saiu o jackpot na máquina da vida, tlim, tlim, tlim, a mim e a eles, tlim, tlim, tilim, e que as moedas não param de cair, tlim, tlim, tlim, e que somos uns sortudos, nós, ali, a rebolarmo-nos na areia molhada e a oferecermo-nos prémios ao melhor croquete humano, num sábado à tarde de um dia de quase, quase Verão.
publicado por Vieira do Mar às 03:20
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Sofia Vieira

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